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FUCKED-UP

I read fucked-up authors’poems like Sylvia Plath’s.

I watch fucked-up junkie movies like “Christiane F.”

I’m obsessed by fucked-up biographies like “Bonnie & Clyde”.

I mostly write fucked-up stuff ‘bout death.

 

My psychiatrist just laughs.

MELINDA (PARTE I)

I

Fui pra casa aquela noite

Partida em pedaços

Alguns em falta

Largados no caminho.

 

Minhas forças eram poucas

Não podia; não poderia.

 

E as sapatilhas nas mãos

Pendendo pelas fitas.

 

Pés no chão gelado

A noite de companhia.

 

Nada a meu redor; não via nada.

Apenas o que havia dentro

Apenas o que martirizava, cortava, sangrava.

O despedaçado;

O quebrado;

O tudo que naufragava em vazio

Esse confuso que se instalava.

 

Não eram apenas as sapatilhas vazias de mim;

Minha alma também não me preenchia mais.

Apenas flutuava

Torturada.

 

E eu, corpo

Só.

 

Passo os dedos pelo cabelo

Algo deve estar no lugar

Algo deve exprimir retidão

Nem que sejam os cabelos.

 

O asfalto não termina

Já não evito as poças

Para quê?

Pra que me manter…

 

Ah, já não penso.

 

Os pés descalços levam-me

Onde estou?

Não pergunte

Permito-me não saber.

 

Sem alma, não sou eu.

Sem alma, não há norte.

 

E ela está vagando, maltratada

Esvaída de mim

Evitando encontrar-me

Pois ver-me assim…

 

Ela não agüentaria!

 

Levou minha visão com ela

E agora só há cavidades mortas

Só há um nada,

Um nada,

Um nada.

 

O GATO

Mostra-me outras mãos que não sejam as tuas

E choro outras lágrimas que não sejam as minhas

Entrego-te as pérolas e rendas do vestido

Nesses dedos calosos, jogo o tecido.

O escarlate toma a tua cara!

Cuspo ao chão

Acerto o gato morto

putrefato na sala de estar.

Cortinas pesadas combinam com o tapete

É grande o cômodo na  casa de campo

O sol é tapado como em mausoléu

Cena encontra cenário conveniente.

Eu te posso, mas recuso de cara limpa

enquanto a tua contorce, range, vomita obscenidades

És o tudo que se esvaziou com o tempo

Recipiente mofado, encharcado de náusea absoluta.

Rogas as pragas das páginas amareladas

Rio até a última gargalhada, feito faca em ti.

COR DE COBRE

Tudo que se toma pelo olhar,

dentro da fúria adocicada que te dedico

nas prendas cor de cobre que trago no rosto…

Se acreditas em pupilas,

Ilhas, presilhas de ti,

pilhas faiscantes quando o piscar vem…

Me diz o que sentes ao ver a cigana!

Conta-me como ela te engana

na trama da teia de cada fibra,

nervos saltitantes, irritantes.

Revela o segredo bem guardado da dona.

MÚLTIPLA ESCOLHA

A vida importa mais quando é da gente

E está bem na frente

Querendo te acenar adeus.

Vida não é pão, sexo, família.

Vida é olhar na cara da morte

Um sentimento de desmaio

É protegê-la com os dentes

Arrancando a foice e urrando

Até que os monstros saiam de perto.

Não há vida em empreguinho de 8 às 12

Nem novela às 9 da noite

Na mediocridade do supermercado lotado

Na fila do banco, sacando cheque-especial

Nem fones de ouvido com seu BRock de protesto

Meu filho, cresce e enxerga que isso é mesquinharia

É o constrangedor dia-a-dia

Do grilhão dessa gente.

É a tua “gaiola de ferro”.

Chora, treme, entra numa crise existencial

Não serás novidade

Só mais publicidade

Pros “males da vida moderna”.

Acorda, levanta, segue em frente

E serás como muita gente

Que ri quando deveria estar caindo pelos cantos

E aparece como exemplo de vida

Enfeitando alguma reportagem de três minutos

[é pra cumprir tabela no jornal]

Vai viver como um ermitão

E só vais ter o contato da morte pairando

O escarro dos outros em ti

Literal e metaforicamente

E não poderás ser sorridente

Ou quebras as regras dum recluso

[sim, também aí há regras!]

Ah, meu querido

Apenas vive

Faz teu melhor

Mas não te livra do teu pior

Pois pode te valer.

Guarda um dinheiro na poupança

Deixa ao menos casa como herança

E vai morrer em paz.

LITTLE FLIGHT

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Waiting for the bells to ring

Carrying every kind of sin

Not sure if there’s a prize for winning

Esperando que os sinos toquem

Carregando todo tipo de sina

Sem a certeza se há prêmio por ganhar

Listening to the sax in the evening

All the stars are full of swing

Nothing on mind to think

Escutando o saxofone de tardinha

Todas as estrelas estão cheias de movimento

Nada em mente para pensar

Many battles weren’t clean

But I’m conscious I didn’t mean

One more song written to sing

Muitas batalhas não foram limpas

Mas estou consciente que não tive a intenção

Mais uma música escrita para cantar

Glamorous pleasure when we blink

Fill the blankets of my screen

My eyes, like clouds, only sink

Prazer glamuroso quando piscamos

Preencha as partes em branco de minha tela

Meus olhos, como nuvens, apenas vazam

See the grass, it’s turning green

I’m quite sure it’s spring

Growing quickly my wings

Veja a grama, está se tornando verde

Tenho plena certeza que é a primavera

Crescendo rápido minhas asas

O QUE RESTA

Peito imprudente!

Te consomes em mil ninharias

vidraças quebradas

da casa de bonecas com que deliraste.

Parvo!

Embora distante,

crias em ti o sentimento do cavaleiro que volta

reluzente armadura

no sol do entardecer.

Criatura tola e desfigurada!

Se tivesses a sorte do principiante

ao jogar os dados

ainda sim, contarias errado o resultado!

Enterraram tua inocência num buraco

e não demarcaram.

Riem de ti.

É tua paga, teu soldo.

Ajoelha e cata as moedas – é o que te resta.

LÁBIOS

lábios

A rainha chora.

Gotas espessas de sangue escarlate

coagulando-se depressa com a fibrina.

Mancha-se o vestido branco

de renda madre-pérola trazida da Europa.

Mancham-se as calçolas: já é moça.

Os lábios são entreabertos

como para provar delícias ainda cobertas

pelo véu da inocência ignorante.

A língua se aquece dentro da boca

e contorna os lábios virgens.

É a alma separando-se do corpo,

deixando-o na descoberta dos impudores de Baco.

COTA DE PACIÊNCIA

Você me deixa num talvez tão incômodo
Chegando à tortura para alguém como eu
Sou imediatista, meu caro
Quando se trata de sims e nãos.
Você me deixa num talvez tão profundo
Que eu tento desprender-me de ti
Mas algo me puxa de volta sempre
Como a ressaca da praia da noite de verão.
Tentativas frustradas de esquecer teu telefone
Mais frustradas ainda de esquecer teu nome
E nos momentos felizes ou amargos
Me apanho, surpresa, te abrindo o meu coração
Quis tanto crer numa resposta positiva
Quis tanto ser aquela que você queria
Todavia, a paciência acaba um dia
E transformo teu talvez no MEU não.
[e nem venha de pires na mão!]

VERMELHO

hhh

Trago as unhas vermelhas

Assim como a tinta da caneta

Assim como o blush nas bochechas

Assim como a raiva na cabeça.

 

Como a bolsa em cima da mesa de jantar

Como as flores que esqueceste de me dar

Naquele dia em que o vermelho acabou por ficar

No seu rosto, depois de te esbofetear.

 

E jogar nosso porta-retrato no chão

E de tapar os ouvidos com as mãos

Não ousar ouvir nenhuma explicação

Expulsando-te e trancando meu portão.

 

Vontade de cortar-te em retalhos

E evitar que costures os pedaços

Porém, já que literalmente não posso

Decepo tua cabeça das fotos.

 

Livre, agora, enxergo além da parede

Parece tudo, na rua, mais verde

Sinto que nada em mim se perde

Só acrescento mais, a vida cresce

 

É mais matiz

Sou mais feliz

O vermelho instigante

Tornou-se branco levitante.

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